A História do RPG (Parte 1)


Por Steve Darlington

Tradução: Rodrigo Semente

Disponível em http://ptgptb.org/0001/history1.html

A mais completa, mais precisa e apenas ligeiramente tendenciosa exposição da turbulenta existência do hobby, desde as suas origens até aos nossos dias. Divididas em cinco partes.

PARTE I Um pequeno passo para um wargamer …

litle-warsNossos ancestrais

Como todas as boas histórias, que começam com um famoso gênio que estabelece o empurrão inicial. Neste caso, é a incrível visionário, HG Wells. Wells não só foi o avô da ficção científica, ele também foi o avô de jogos de guerra. O que faz dele, se preferir, o bisavô dos Role-Playing Games.

Os Jogos de Guerra existem desde que as guerras aconteceram. A idéia de simular batalhas sem os perigos pessoais pode ser rastreada até a Suméria antiga, mais de quatro mil anos atrás. O Xadrez e Go, dois dos mais antigos jogos do mundo, surgiram a partir de jogos de guerra. Os Jogos de Guerra contemporâneos originaram-se na Prússia, na virada do século 19. O jogo, Kriegspiel (Jogo de Guerra), introduziu a idéia de organizar marcadores sobre uma “mesa de areia”, e utilizando um dado para determinar quaisquer elementos aleatórios na batalha. Após a Guerra Franco-Prussiana, os ingleses criaram suas próprias versões, e eles começaram a ser usados com sabedoria pelas forças armadss para treinar em tática e prever os resultados militares.

Foi Wells, porém, que primeiro abriu os jogos para os amadores. Em 1915, ele publicou um conjunto de regras amadoras de jogos de guerras em um livro intitulado Little Wars, agora visto como a bíblia dos “Jogadores de Wargames” bíblia. Wells foi também o primeiro a sugerir que as miniatura devessem ser usadas para representar respectivas forças, para adicionar sabor, e um sentido de participação no jogo. Embora o livro fosse popular, Wargames realmente não decolaram, até que, em 1953, Charles Roberts lançou o primeiro jogo de guerra de “tabuleiro” disponível comercialmente. Apesar de ter sido um começo devagar, Roberts finalmente criou a companhia de jogos Avalon-Hill, atualmente uma das maiores companhia de jogos do mundo.

Curiosidades: muitas das informações deste artigo vieram da soberba exame sociológico do RPG de Gary Fine, intitulada “Shared Fantasy”.

senhor-do-aneisDa faísca para o fogo

De fato, na década de 60 e 70, Os Jogos de Guerra se beneficiaram do auge de popularidade que ainda tem que ser retomado. Parece que todos aqueles jovens que não estavam usando LSD e ouvindo Bob Dylan estava jogando um bocado de Wargames dos infernos. Logo, já não era um jogo, era uma indústria. Uma enorme, bem estabelecido e bem definido Fanclub, com as suas próprias congregações, publicações e jargão foi evoluindo, tal como o foi para os fãs de ficção científica no mesmo período. No final dos anos sessenta, houve uma forte e estável sub-cultura para os wargamers, um ambiente de apoio que estava a começando a fomentar muita criatividade e experiencias entre os seus membros. Foi exatamente este tipo de exploração, que foi o combustível para o fogo do Role-Playing. Mas ainda era necessária uma faísca. Uma faísca que foi: O Senhor dos Anéis.

Lançado na íntegra nos Estados Unidos em 1966, ele chegou para mudar o mundo literário, e também o mundo de milhões de americanos adolescentes de classe média. E já que noventa por cento dos jogadores de Wargames eram adolescentes do sexo masculino de classe média, é preciso apenas um pouco de imaginação para ver o que aconteceria em seguida. Os jogadores já não desejavam recriar a batalha de Gettysburg, mas a batalha do Abismo de Helm. As guerras napoleônicas foram abandonadas em favor da Guerra do Anel, Goblins e orcs substituíram a infantaria e cavalaria. As pessoas queriam saber quanto de dano um Balrog poderia fazer, e qual a distancia de um feitiço de relâmpago.

Parecia apenas uma questão tempo antes do primeiro jogo ambientado no mundo do Tolkien desde que Senhor dos Anéis foi publicado. Houve, contudo, um ligeiro impedimento para isto, que foi o fato de que havia muito poucos Wargames bons que lidavam com a era medieval bem o suficiente para permitir que coisas como magia e dragões pudessem ser introduzidas. E no caminho do destino cruzou dois homens: Ernest (Gary) Gygax e David Arneson.

Curiosidades: A primeira edição do D&D, tal como muitos jogos que se seguiram, contavam com hobbits. Contudo, advogados de Tolkien logo ameaçaram ações de copyright, levando ao nascimento dos “halfling”.

tsrA Lendária Parceria

Em uma pequena cidade em Wisconsin chamado Lake Geneva, Gygax, Jeff Perren e amigos criaram um Wargame que tinha modelos precisos da maioria dos aspectos de uma batalha medieval. Era chamado Chainmail, e foi publicado pela nova empresa de Gygax, Tactical Studies Rules. Foi uma versão posterior, mais amplamente distribuída, que se tornou o primeiro Wargame a incluir regras para gigantes, trolls, dragões e magias. Este jogo é encarado como o predecessor imediato de Dungeons e Dragons, e, na verdade, existem muitas semelhanças nas regras e estilos.

Curiosidades: TSR foi nomeada baseada em um clube de jogo local: A Associação de Estudos Táticos do lago Genebra (Lake Geneva Tactical Studies Association).

No entanto, As sementes do role-playing foram plantadas muito mais cedo. Na época em que o Chainmail foi escrito, Gygax foi membro de um grupo de entusiastas de guerras medievais intitulada Castles and Crusades Society. Um colega, Arneson, já começara a experimentar algumas idéias de role-playing. Como ele mesmo falou:

Curiosidades: Arneson dá crédito a si mesmo par ter incluído “magia” nos Wargames – aparentemente após assistir um episódio de Star Trek, Dave deu para seu druida um Phaser, e enviou seus opositores forçando-os ao reino do alem! Isto se tornou naturalmente a magia relâmpago.

Eu tenho que dar muito crédito [pela a idéia] para outro jogador local, Dave Wesley. Ele foi o primeiro a introduzir o role-playing … o primeiro jogo que aparece em minha cabeça são uns poucos jogos medievais, um período muito chato para dos Wargames. Ele tinha um sistema de regras bobo e depois do nosso segundo jogo, estávamos entediados. Para apimentar um pouco, Dave, que organizou e arbitrou [o Wargame], deu a cada uma pequena meta pessoal na batalha.

Isto foi em 1968. Embora bruto, foi o primeiro passo em direção ao role-playing. Arneson continua:

Bem, aquilo deixou todos nos pensando “aquilo não foi bom ” e fizemos alguns outros jogos com várias pessoas. “Vamos ter uma grande campanha medieval com meia dúzia de pessoas diferentes, jogando com um pequenos poderes e com cinquenta ou sessenta homens, e então você é o rei ou a cavaleiro, ou o que quizer.” E isso foi evoluindo. O que nos levou ao role-playing.

No início dos anos setenta, a criatividade Arneson encontrou a fantasia de Gygax e os dois homens começaram a unir suas idéias. Em 1970 ou 1971 (Arneson nunca teve certeza da data), Arneson pegou o sistema do Chainmail e jogou o que foi o primeiro verdadeiro RPG que existiu.

Todos os amigos tinham vindo para uma noite tradicional de Batalhas Napoleônicas, e viram a mesa coberta com um enorme castelo em cima dela. [Eles] imaginaram como aquilo tinha chegado nas planícies da Polônia, ou qualquer lugar que estávamos jogando, e eles logo descobriram que eles estavam descendo em direção a profunda, fria, úmida, e escura masmorra(dungeon).

black-moorEste jogo se tornou mais tarde de Blackmoor dungeon campaign (Masmorra de campanha Blackmoor). Gygax rapidamente seguiu o exemplo com uma aventura que viria a ser a Campanha de Greyhawk. Ao longo dos próximos anos, os dois jogaram e testaram regras que acabaria por se tornar o jogo Dungeons & Dragons, o primeiro role-playing game do mundo vendido comercialmente. Como Wargames, teve um inicio fraco, mas um hobby totalmente novo nasceu.

Curiosidades: Evidentemente, o RPG não foi chamado de role-playing naquele momento. A primeira edição de D&D foi chamada “Fantasia Medieval Wargame, jogada com papel, lápis e Miniaturas“, nem mais, nem menos.

Uma última homenagem a Dave Arneson

Como todas as grandes parcerias, Gygax e Arneson não ficaram sem diferenças criativas. Menos de um ano após a D&D foi lançado, estas diferenças atingiram o limiar, e Arneson partiu. A TSR, com o novo parceiro de Gygax, Brian Blume, continuou a trabalhar, mas sem pagar os royalties que Arneson ainda tinha direito legalmente devido a sua parte como proprietário. Em 1979, Arneson levou este assunto para o tribunal e, após uma longa batalha, que foi ganha pela TSR. A tragédia é que, hoje, é Gygax aclamado e elogiado como o único e grande pai do RPG, enquanto Arneson foi esquecido por todos e pela indústria. Espero que esta história tenha, de alguma maneira, servido para corrigir esta injustiça.

NOTAS DO TRADUTOR: Está e a 101ª matéria do blog, e como nunca falei nada sobre o que é RPG ou sua origem, aqui estamos reparando esse erro. Esta série de artigos que estou traduzindo é uma homenagem aos criadores do RPG. Descansem em paz Gary e Dave.

Em memória de:

Dave Arneson (01/10/1947 – 07/04/2009)

dave2

Gary Gygax (27/07/1938 – 04/03/2008)

gygax2

11 Respostas to “A História do RPG (Parte 1)”

  1. Muito Bom Rodrigo. Uma das melhores matérias sobre a história do RPG que eu já li. Concisa mas completa!

    Aproveita que você tá homenageando os pais e homenageia o filho também. Afinal ele está completando (ou já completou em janeiro), 35 anos!

    Abraços!

  2. o filho? não entendi 😛

  3. O D&D Oras! 🙂
    Filhote de Anerson e Gygax.

    Por falar nisso,você já teve o prazer de colocar os olhos na versão original do D&D? O primeirão mesmo, lá de 1974?

  4. Filho de Anerson e Gygax? Isso soa estranho… 😄

    Muito boa a sua matéria, Anerson sempre foi um cara muito malhado pela história e raramente era reconhecido como o gênio criador que ele de fato é.
    Foram duas grandes perdas pro RPG, uma atrás da outra. Me pergunto se isso pode ser algum sinal de mudança para a industria.

  5. […] e como, em parte, eles mudaram a vida de todos nós que jogamos. O pessoal do Guerras Dracônicas publicou uma tradução de um excelente texto que conta a história do atual RPG desde seus primórdios, ainda sendo um […]

  6. Excelente artigo Rodrigo.
    Espero pelas partes seguintes.

  7. […] Se você perdeu a primeira parte da história, confira aqui […]

  8. Olá Rodrigo gostei muito do seu post, estou fazendo um trabalho de conclusão de curso de psicologia onde iremos contar a historia do RPG e mostrar que o RPG não influencia no desenvolvimento moral do adolescente,caso possa nos dar alguma dica agradeço.

    Abraços
    Silvia

  9. […] Desde a conclusão da triologia Senhor dos Anéis em 1949, as mitologias de origem germânica e anglo-saxã, com seus elfos, anões e orcs passaram a ser a referência padrão em obras de fantasia medieval e posteriormente vieram a influenciar de forma direta o surgimento do RPG (como pode ser visto neste artigo). […]

  10. […] Desde a conclusão da triologia Senhor dos Anéis em 1949, as mitologias de origem germânica e anglo-saxã, com seus elfos, anões e orcs passaram a ser a referência padrão em obras de fantasia medieval e posteriormente vieram a influenciar de forma direta o surgimento do RPG (como pode ser visto neste artigo). […]

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